3. Os bens
especialmente escassos são vendidos a preços altos. O alto preço estimula a
conservação e aos cuidados – Quando uma geada destrói parcialmente a colheita de
café, seu preço sobe e economiza-se mais o café. Os que são mais ou menos
indiferentes entre o café e o chá tomarão mais chá. Mesmo as pessoas que não
podem prescindir da preciosa rubiácea são motivados a reduzir seu consumo. Com o
alto preço do café, tomarão duas em vez de três xícaras.
4. O sistema
de preços motiva os produtores a conservarem recursos escassos – No Estado de
Goiás, a terra é abundante e relativamente barata; muita terra é
destinada à pastagem para manter rebanhos bovinos. Ao contrário, no Japão, a
terra é relativamente escassa e cara. Os japoneses utilizam a terra
intensivamente na produção de arroz, em vez de usá-la como pastos.
5. O mercado
permite um “alto grau de liberdade econômica” – Ninguém obriga as pessoas a
negociarem com certas empresas ou indivíduos. As pessoas não têm de escolher uma
profissão de acordo com diretrizes governamentais; têm a liberdade de escolher
seu ramo de atividade. Além disso, se as pessoas poupam, têm direito de utilizar
as poupanças para estabelecer sua própria empresa independente.
6. Mercados
descentralizados dão informação sobre as condições locais – Se em uma quantidade
extraordinária de terra boa para a produção de feijão for plantado milho, o
preço do feijão começará a subir neste país. A majoração do feijão indicará aos
agricultores do país que eles devem plantar feijão numa área maior de suas
terras, em vez de dedicarem tantos hectares à produção de milho. Nenhuma
repartição governamental seria capaz de manter um conjunto de informações
atualizadas e detalhadas sobre os milhões destes mercados locais. (Note a
quantidade de informação que seria relevante para a decisão de plantar feijão ou
milho: a qualidade da terra, o número de pessoas que comem feijão, o custo dos
fertilizantes para o feijão e para o milho, o custo das sementes etc.).
Para avaliar o
funcionamento do mercado, não devemos esquecer a mais importante de todas as
perguntas: quais são as alternativas ? Mesmo um mercado ruim poderia funcionar
melhor que as alternativas, especialmente as alternativas criadas por teóricos
sem antes passarem por testes práticos. (O quadro Controle de Aluguéis dá um
exemplo dos problemas que aparecem quando o governo tenta contornar o mecanismo
do mercado). Assim, um dos mais fortes argumentos a favor do mercado lembra a
frase que Winston Chruchill costumava empregar para defender o sistema
democrático: Pode não funcionar à perfeição, mas funciona melhor que as
alternativas.
ASPECTOS
NEGATIVOS DO MERCADO:
1. Embora o
mercado dê muita liberdade de ação aos agentes econômicos, pode dar pouco mais
do que o direito de morrer de fome aos fracos e desamparados -
Em um mercado,
os produtores não respondem às necessidades e aos desejos de todos
os
consumidores, apenas ouvem as vozes dos que têm dinheiro para comprar. Portanto,
em um sistema de laissez-faire, os cachorros de estimação dos ricos podem
receber melhor alimentação e cuidados médicos do que os filhos dos pobres.
2. Um sistema
completamente livre (de empresas privadas) pode ser muito instável, com anos de
crescimento rápido seguidos de anos de severa recessão – Há várias
circunstâncias em que a economia se torna instável, quando bancos não são
regulados ou são mal regulados, por exemplo.
3. Em um
sistema laissez-faire, os preços nem sempre resultam da ação de forças
impessoais do mercado – Apenas em um mercado de concorrência perfeita é que o
preço resulta do cruzamento das curvas de oferta e demanda – Em muitos mercados,
um ou mais participantes têm o poder de mudar o preço. O monopolista ou
oligopolista pode restringir o nível de produção para fazer o preço subir.
4. As ações de
consumidores ou produtores podem criar efeitos colaterais ou externalidades –
Ninguém é dono do ar ou dos rios, por exemplo, e as indústrias têm utilizado
estes recursos impunemente para se desfazerem de resíduos e lixo, prejudicando
outros que respiram o ar e usam a água. O mercado privado não incentiva o
controle destas externalidades.
Externalidade –
é um efeito colateral adverso (ou benefício), relacionado com o consumo ou a
produção, em troca de que não se dá ou recebe qualquer pagamento.
5. Para certas
atividades, o mercado simplesmente não é adequado - Caso haja uma ameaça
militar, a sociedade não poderá defender-se utilizando os mecanismos do mercado
– Um indivíduo não é incentivado a comprar um fuzil para o Exército, porque a
sociedade em geral, e não ele especificamente, será beneficiado pela compra.
Portanto, a segurança nacional é um bom exemplo de um serviço que o
governo deve prestar. Outros exemplos são o policiamento e a manutenção do
sistema judiciário. Não importa se o mercado funciona bem ou mal, não se pode
permitir a “compra” de juízes.
6. Em um
sistema de laissez-faire, os homens de negócios podem fazer um trabalho
admirável de satisfazer a demanda. Mas por que esses senhores mereceriam elogios
por satisfazerem uma demanda que eles mesmos podem ter criado mediante a
propaganda ? Nas palavras do Profº. John Kenneth Galbraith, “supor que as
preferências observadas se originam do consumidor requer certa imaginação”.
Neste caso é o produtor, não o consumidor, que manda. Segundo Galbraith, o
consumidor é um títere, manipulado pelos produtores mediante artifícios de
propaganda. Muitos dos desejos que os produtores originalmente criam e, em
seguida, satisfazem, são banais: a demanda por desodorantes, ceras, comidas sem
valor nutritivo. Vários economistas marxistas modernos fazem a mesma crítica ao
mercado.
“Sem defender
o mérito de qualquer produto, os que defendem o mercado podem contra-argumentar,
baseados parcialmente na pergunta: Quais são as alternativas ? Caso
o mercado não seja o instrumento para decidir quais bens “merecem” ser
produzidos, quem será o responsável ? Um burocrata do governo ? Não se deve
permitir que as pessoas cometam seus próprios erros ? E como Galbraith pode
supor que todos os desejos criados são sem valor ? Afinal de contas, poucos
nascem com uma preferência definida por música ou por arte. Nossa preferência
musical é criada quando ouvimos um criador de boas melodias, com Vinícius de
Moraes. Alguém do governo deveria proibir as músicas de Vinícius porque apenas
satisfazem os desejos criados ? Finalmente, o Profº. Galbraith exagera
quando sugere que as empresas podem controlar as vendas por propaganda,
protegendo-se das incertezas do mercado. Mesmo um produto que é amplamente
promovido pode fracassar”.
“Estas seis
críticas ao mecanismo do mercado poderiam ser ainda mais elaboradas, para
fornecer um argumento a favor de sua substituição por um sistema de controle
governamental. Os economistas marxistas dão especial ênfase a primeira e à
última crítica quando atacam as economias de mercado. Mas os que pregam a
reforma, em vez da eliminação do sistema de mercado, também utilizam as seis
críticas. Uma grande parte da recente história econômica da Europa
Ocidental, da América do Norte e de muitos outros países do mundo tem sido
escrita por tais reformadores. Os seguintes exemplos são uma amostra dos
argumentos dos reformadores: o funcionamento de um sistema de mercado deve ser
modificado mediante programas privados e públicos assistência para assegurar a
sobrevivência dos fracos e desamparados. Nas situações em que poucos controles
sobre os bancos têm permitido instabilidade econômica, o governo deve
estabelecer uma moeda forte e estável com o objetivo de propiciar um ambiente
favorável ao desenvolvimento do mercado. Os monopólios com um excesso de poder
devem ser desarticulados ou severamente controlados pelo governo. O governo pode
produzir diretamente os bens e serviços em áreas como a segurança nacional, a
justiça e o policiamento, nas quais o sistema de mercado não funciona ou
funciona mal. (Com poucas exceções, a sexta crítica não tem suscitado reformas.
Em parte, isto se deve a dúvidas sobre a importância das distorções gerais da
propaganda. Outra explicação para a falta de reformas na área de propaganda tem
a ver com a relação entre a propaganda e a imprensa. A imprensa depende muito
das taxas cobradas a anunciantes, para se sustentar. Severas restrições sobre o
uso da propaganda poderiam debilitar a imprensa financeiramente e
enfraquecer esta importante instituição democrática”.*).
Para certos
marxistas críticos do sistema de mercado, este último argumento serve para
desacreditar ainda mais o sistema de mercado. Argumentam que uma imprensa que
depende dos anúncios de poderosas empresas para sobreviver não pode ser uma
imprensa verdadeiramente objetiva e livre.